A Forma da Água, longa-metragem do cineasta mexicano Guillermo del Toro, liderou as indicações na 75ª edição do Golden Globes Awards (Globo de Ouro) com sete nomeações. A cerimônia, que reúne categorias dedicadas a produções para cinema e TV, aconteceu na noite de domingo (7), em Los Angeles, nos Estados Unidos. No entanto, apesar de seu favoritismo o filme saiu da premiação com duas estatuetas: Melhor Diretor e Melhor Trilha Sonora Original. Na ocasião, o drama Três Anúncios para um Crime, do cineasta britânico Martin McDonagh, foi o grande vencedor tendo levado quatro das seis indicações: Melhor Atriz em Filme Dramático (Frances McDormand), Melhor Filme Dramático, Melhor Ator Coadjuvante (Sam Rockwell) e Melhor Roteiro de Cinema (Martin McDonagh). O filme de del Toro também concorreu nas três primeiras categorias citadas, mas Três Anúncios para um Crime acabou vencendo. Organizado pela Associação da Imprensa Estrangeira em Hollywood (HFPA, na sigla original), o Globo de Ouro tradicionalmente dá início à temporada de prêmios.

Nesta semana, foi a vez de A Forma da Água dominar o Critics’ Choice Awards, a premiação de críticos nos EUA. Considerado um termômetro para o Oscar, o Critics’ Choice é organizado anualmente pelas associações de críticos Broadcast Film Critics Association (BFCA) e Broadcast Television Journalists Association (BTJA) e sua 23ª edição foi realizada ontem (11) na cidade californiana de Santa Monica. O longa foi o grande vencedor saindo da cerimônia com quatro prêmios: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Design de Produção e Melhor Trilha Sonora. O romance de fantasia do diretor mexicano também liderou a premiação com 14 indicações. A trama mostra a história de amor entre Elisa (Sally Hawkins), uma mulher muda que trabalha como faxineira em um laboratório experimental secreto do governo, e uma criatura fantástica (Doug Jones) que é mantida presa e maltratada no local.

Ambientado na década de 60, em meio aos conflitos políticos e transformações sociais dos Estados Unidos da Guerra Fria, Elisa começa a usar a linguagem de sinais para se comunicar com a criatura e acaba se afeiçoando por ela. Mesmo com todos convencidos de que o homem-peixe pode se provar mais perigoso do que Elisa poderia imaginar, ela elabora um plano para escapar com a criatura e para isso conta com a ajuda de seu vizinho (Richard Jenkins). O diretor Guillermo del Toro volta com seu estilo inconfundível e marcante em A Forma da Água, misturando conto de fadas, terror e suspense como fez com maestria em A Colina Escarlate (2015) e O Labirinto do Fauno (2006).

O enredo de A Forma da Água possui elementos semelhantes ao tradicional conto de fadas francês A Bela e a Fera, escrito por Gabrielle-Suzanne Barbot, em 1740, e que se tornou mais conhecido na versão de 1756, escrita por Jeanne-Marie LePrince de Beaumont. Ambos abordam temas como o poder transformador do amor e a nossa relação com a alteridade e a monstruosidade. As duas narrativas se aproximam do universo fabuloso na medida em utilizam feras e animais para, na verdade, falar sobre a crueldade e a compaixão dos seres humanos com o outro, o diferente. Assim como a personagem Bela do conto de fadas, Elisa é dona de um ponto de vista único e ensina que, de alguma forma, sempre podemos ser “fera” aos olhos de outra pessoa. A Forma da Água é uma metáfora do nosso tempo que não entende as diferenças agindo, muitas vezes, de forma intolerante.

A trilha sonora do filme tem sido muito elogiada e premiada. Alexandre Desplat é o compositor responsável. Vencedor do Oscar de Melhor Trilha Sonora Original com O Grande Hotel Budapeste (2014), Desplat trabalhou recentemente nas trilhas da série Marseille (2016), da Netflix, e dos filmes Suburbicon – Bem-vindos ao Paraíso (2017), Valerian e a Cidade dos Mil Planetas (2017) e A Luz Entre Oceanos (2017). Aqui a trilha sonora é usada para construir a personalidade de personagens excêntricos desenhados por suas pequenas ações cotidianas em rotinas detalhistas: o banho de banheira, a refeição, a ida ao trabalho. Apesar de muda Elisa consegue ouvir e a musicalidade do filme é usada tanto para construir as relações da protagonista com a criatura quanto para exteriorizar os sentimentos e emoções.

A canção original You’ll Never Know é um jazz interpretado por Renée Fleming, famosa soprano americana que pela beleza da voz é denominada por muitos The Beautiful Voice, e revelador sobre o grau de envolvimento de Elisa com o homem-peixe. Na letra, em tradução livre, o eu-lírico diz: “Você nunca saberá o quanto eu sinto sua falta / Você nunca saberá o quanto eu me importo / E se eu tentar / Eu ainda não consegui esconder meu amor por você / Você deveria saber, por não ter te falado assim / Um milhão ou mais vezes? (…)”. E continua com sua declaração de amor:  “Você foi embora e meu coração foi com você / Eu falo seu nome em todas as minhas orações / Se existe alguma outra forma de provar que eu te amo / Eu juro que não sei como / Você nunca saberá se você não sabe agora (…)”.

Outros clássicos do cancioneiro mundial também ajudam a embalar momentos especiais no filme como: La Javanaise, na voz de Madeleine Peyrox; I Know Why (And So Do You), interpretada por Sonja Henie e pela Glenn Miller Orquesta no musical Quero Casar-Me Contigo (Sun Valley Serenade), de 1941, dirigido por H. Bruce Humberstone; Chica Chica Boom Chic, cantada por Carmem Miranda; Babalu, por Caterine Valente e Silvio Francesco e Summer Place (do filme homônimo de 19159, aqui no Brasil foi traduzido como Amores Clandestinos), na voz de Andy Williams, cantor estadunidense famoso por sucessos como Moon River, a canção-tema do filme Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany’s, de 1961), dirigido por Blake Edwards.

Elisa’s Theme, o tema instrumental da protagonista de A Forma da Água, lembra La Valse d’Amélie, música da personagem principal de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001) – do cineasta francês Jean-Pierre Jeunet com trilha sonora de Yann Tiersen. A escolha de instrumentos como o acordeon e o piano criam uma atmosfera francesa com cadências que remetem ora à solidão ora à beleza contida nos pequenos e simples gestos no dia a dia. Mas a trilha sonora não é a única semelhança entre a produção de Guillermo del Toro e a do diretor francês. Há também alguns elementos visuais que dialogam entre os filmes. A começar pelo cabelo das personagens: Elisa usa um corte tipo chanel, que evoca o cabelo curto de Amélie Poulain (Audrey Tautou). A paleta de cores de A Forma da Água é baseada em tons cinzas e azulados, mas, tanto na casa de Elisa quanto em seu ambiente de trabalho, é possível notar a predominância de tons verde musgo característico da tonalidade dos brejos, charcos, pântanos ou ao fundo do mar, ambiente natural da criatura da fábula subaquática de del Toro.

Assim como a trilha sonora, o trabalho de cores do longa-metragem é feito de forma primorosa para caracterizar as mudanças de estado de espírito de Elisa como, por exemplo, quando a personagem começa a se apaixonar pelo ser marítimo e parte do seu figurino (como a faixa de cabelo, o sobretudo e os sapatos vermelho) é substituído por semelhantes, só que na cor vermelha. As cores verde e vermelho também são muito presentes na paleta de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, apesar de no filme francês cores terem mais vivacidade. Outra semelhança entre as produções é a figura do vizinho. Amélie Poulain é vizinha de Serge Merlin (Raymond Dufayel), um pintor com quem ela conversa diariamente e que refaz sempre a mesma obra: O Almoço dos Barqueiros, de Jean Renoir (1894 – 1979). Já Elisa tem como vizinho um ilustrador (Richard Jenkins) que vai ajudá-la a salvar a criatura humanoide.

A Forma da Água é um filme que fala sobre poesia do encontro: uma mulher e sua solidão, um homem e seus traumas e uma criatura que muda para sempre essas duas vidas. Guillermo Del Toro declarou que essa é sua obra mais esperançosa: “Vivemos em um mundo esquisito, onde ódio e cinismo são considerados inteligentes e se você fala de sentimentos parece um idiota. A emoção é o antídoto, é o novo punk. Por isso queria um filme apaixonado pelo amor e pelo cinema, minha obra mais esperançosa”, disse o diretor em matéria publicada no site El País, edição Brasil.

Um romance homônimo será publicado no Brasil pela editora Intrínseca. Idealizado por Guillermo del Toro e Daniel Kraus, o livro é uma mistura de fantasia, fábula e drama: “A Forma da Água é a fagulha de ideia mais antiga que eu tenho — eu a trago comigo desde os quinze anos”, conta Kraus. O autor explica que não tinha uma história totalmente desenvolvida até ele conhecer o cineasta mexicano: “Segundos depois que eu lhe contei a premissa, ele começou a preencher as lacunas na narrativa. Amo escrever com o Guillermo porque ele é o artista mais sincero e emocionalmente aberto que eu conheço, e essa sensibilidade complementa minhas tendências mais obscuras e grosseiras.”

Daniel Kraus trabalhou anteriormente com Guillermo del Toro no livro Caçadores de Trolls, que foi adaptado pelo cineasta em uma série de animação da Netflix, sendo a produção mais assistida da história do site na categoria de programas para a família. Foi durante uma reunião sobre esse projeto que os dois começaram a desenvolver a ideia que se tornou A Forma da Água. Mas essa é uma história na qual del Toro tem pensado desde quando tinha seis anos e viu Julie Adams em Monstro da Lagoa Negra (Creature from the Black Lagoon), de 1954, como afirma em matéria do blog da Intrínseca: “Sempre esperei que ela [Adams] e a criatura acabassem juntos, mas não acabaram. Foi durante um café da manhã que Daniel, (…), me contou sua versão de uma ideia parecida, e eu soube imediatamente que nós faríamos a história funcionar, tanto para o filme quanto para o livro.”

O livro A Forma da Água conta com as ilustrações do artista James Jean para criar uma narrativa que promete “retratar e expandir o universo do filme”. A publicação tem lançamento mundial previsto para 27 de fevereiro de 2018. O longa-metragem também ganhou no último ano o cobiçado Leão de Ouro de Melhor Filme na 74ª edição do Festival Internacional de Cinema de Veneza e abriu o Festival de Cinema do Rio onde foi exibido uma única vez para o público e a renda foi revertida para vítimas dos terremotos no México. O filme dirigido por Guillermo del Toro e estrelado por Sally Hawkins, Michael Shannon, Octavia Spencer e Richard Jenkins, lidera as indicações para o BAFTA (British Academy of Film and Television Arts), a premiação britânica de cinema, após garantir 12 nomeações nesta terça-feira (09), a realizar-se em 8 de fevereiro de 2018. A Forma da Água é fortemente cotado para o Oscar 2018, que acontece dia 4 de março de 2018. O filme estreia dia 01 de fevereiro nos cinemas brasileiros.

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