Cate Blanchett, vencedora do Oscar 2014 de Melhor Atriz|Foto: Rick Rowell/ABC via Getty Images

Vencedora de dois Oscars (Blue Jasmine e O Aviador), a atriz australiana Cate Blanchett será presidente do júri do Festival de Cannes em 2018. O anúncio foi feito pela organização do evento ontem (4). A 71º edição do festival será realizada entre 8 e 19 de maio de 2018 na Riviera Francesa. Mas essa não é a primeira vez que uma mulher preside o júri deste que é um dos mais prestigiados e famosos festivais de cinema do mundo. Aos 48 anos, Cate Blanchett é a 12ª mulher a presidir o júri de Cannes, quatro anos depois da diretora neo-zelandesa Jane Campion (O Piano, 1993). A estrela de Hollywood assume o posto do cineasta Pedro Almodóvar, presidente do corpo de jurados do festival no ano passado.

Concebido por Jean Zay no final dos anos 1930, a primeira edição do festival aconteceu realmente em 1946, mas com o nome de Festival International du Film, título que se manteve até 2002 quando foi alterado para Festival de Cannes. Em 1955, foi introduzida pelo comitê organizador a Palma de Ouro como prêmio principal do evento – antes desta data, ele era conhecido como Grand Prix du Festival International du Film. No entanto, levou cerca de 20 anos desde a primeira edição do evento para uma mulher presidir o corpo de jurados. A primeira figura feminina que ocupou esse lugar foi a atriz britânico-americana Olivia de Havillan, em 1965, e que vive atualmente na França aos 101 anos.

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Olivia Havilland é uma das mais respeitáveis estrelas da chamada Era de Ouro do cinema americano e uma das poucas que foram contempladas em mais de uma ocasião com o Oscar de Melhor Atriz. Foi com a personagem Melanie Hamilton Wilkes no épico …E o vento levou (Gone with the Wind, 1939) que Olivia entrou nos anais da história do cinema, sendo indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante e ficando marcada como símbolo da doçura nos filmes americanos ao atribuir-lhe uma imagem da qual ela própria tentou se desvincular na esperança de obter papéis mais desafiadores a fim de provar que a sua capacidade artística lhe permitia ir além. Fato confirmado na década de 1940 em seus desempenhos subsequentes que acabaram rendendo-lhe dois Oscars de melhor atriz: o primeiro, em 1946, por Só Resta uma Lágrima (To Each His Own) e mais tarde, em 1949, por Tarde Demais (The Heiress).

No ano seguinte, em 1966, foi a vez da atriz italiana Sophia Loren assumir o posto de presidente. A diva do cinema italiano ganhou fama internacional em 1962, quando recebeu o Oscar de Melhor Atriz pelo filme Duas mulheres (La Ciociara), que também lhe rendeu o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes e o New York Film Critics Circle Awards. Ela detém o recorde por ter recebido seis David di Donatello Awards (considerado o Oscar italiano) de Melhor Atriz pelos filmes: Duas Mulheres (1960); Ontem, Hoje e Amanhã (Ieri, Oggi, Domani, 1963); Matrimônio à Italiana (Matrimonio all’italiana, de 1964, pelo qual ela foi nomeada para um segundo Oscar); Os girassóis da Rússia (I girasoli, 1970); A Viagem Proibida (Il Viaggio, 1974); e Um Dia Muito Especial (Una Giornata Particolare, 1977).

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Na década de 70, quatro mulheres presidiram o júri de Cannes: as atrizes Michèle Morgan, em 1971; Ingrid Bergman, em 1973; Jeanne Moreau, em 1975; e a escritora Françoise Sagan, em 1979. Michèle Morgan foi uma das mais populares e importantes atrizes do cinema francês por cinco décadas. Suas características a levaram a ser comparada com a atriz sueca Greta Garbo. Logo, Michèle foi para Hollywood, que já naquela época estava fascinada pelo prestígio do cinema europeu e de suas atrizes. Nos estúdios norte-americanos participou em filmes famosos, como E as Luzes Brilharão Outra Vez (Joan of Paris), em 1942, ao lado de Paul Henreid; Passagem para Marselha (Passage to Marseille), em 1944, interpretando a esposa de Humphrey Bogart; e no policial noir A Senda do Temor (The Chase), em 1946, ao lado de Robert Cummings. De volta à França, recebeu o prêmio de Melhor Atriz na estreia do Festival de Cannes, em 1946, por seu desempenho em A Sinfonia Pastoral (La Symphonie Pastorale).

Mas Michèle Morgan não foi a única importação da Europa para a “meca” do cinema mundial. A atriz sueca Ingrid Bergman também saiu de sua terra natal para trabalhar nos estúdios de Hollywood. Considerada por muitos uma das maiores estrelas do cinema de todos os tempos, a atriz foi convidada para presidir o corpo de jurados do Festival de Cannes de 1973. Ingrid Bergman foi a primeira estrangeira a receber o Oscar de Melhor Atriz, tendo ganhado duas estatuetas na categoria principal – por À meia luz (Gaslight), de 1944; e Anastasia, de 1956 – além do prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante por sua atuação em Assassinato no Expresso Oriente (Murder on the Orient Express), de 1974.

Em 1975, foi a vez da atriz e cantora francesa Jeanne Moreau ser a presidente do júri do festival. Em 1960, recebeu o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Cannes por seu trabalho em Duas Almas em Suplício (Moderato Cantabile). Em 1973, fez o papel título do filme Joanna Francesa, do cineasta brasileiro Cacá Diegues, quando sua voz foi dublada pela atriz Fernanda Montenegro. Jeanne foi dirigida por grandes diretores como Michelangelo Antonioni, François Truffaut, François Ozon, Louis Malle e Orson Welles, entre outros. Encerrando a década, em 1979, a escritora Françoise Sagan foi a presidente do corpo de jurados de Cannes. Ela conheceu o sucesso ainda garota quando, aos 18 anos, escreveu em sete semanas seu primeiro e mais consagrado trabalho: Bom dia, Tristeza (Bonjour Tristesse), e ao qual se seguiram cerca de cinquenta obras, entre romances, peças teatrais e autobiografias.

Françoise Sagan foi amiga de Tennessee Williams, Orson Welles, François Mitterrand e de Jean-Paul Sartre, um dos maiores intelectuais de todos os tempos. Costumava viajar para os Estados Unidos, onde muitas vezes foi vista com Truman Capote e a atriz Ava Gardner. Mas não havia mais nenhum deles ao seu lado na época de sua morte, endividada, doente e solitária. Descrita pelo ex-presidente francês, Jacques Chirac, como “(…) uma das mais brilhantes e sensíveis escritoras – uma figura eminente de nossa vida literária. (…) Françoise Sagan, uma atriz de seu tempo, contribuiu para o desenvolvimento do papel da mulher em nosso país”. 

Depois de um hiato de quinze anos de qualquer presença feminina, em 1995, Jeanne Moreau retorna como presidente do corpo de jurados do festival. Três anos antes, em 1992, Jeanne Moreau foi premiada como o César de melhor atriz pela personagem Lady M. na comédia La Vieille qui Marchait dans la Mer, de Laurent Heynemann. Em 1997, foi a vez da atriz francesa Isabelle Adjani ocupar o posto. Em 1981, Adjani recebeu o prêmio de melhor atriz do Festival de Cannes por sua atuação em Quarteto (Quartet). Foi indicada duas vezes ao Oscar – por A História de Adèle H., de 1975, e Camille Claudel, de 1989 – e premiada cinco vezes com o César, o mais importante troféu do cinema francês, sendo a recordista na categoria melhor atriz.

Em 2001, a atriz, diretora de cinema e escritora Liv Ullmann foi a nona mulher a presidir o júri de Cannes. Nascida no Japão, onde seus pais estavam a trabalho, possui nacionalidade japonesa e norueguesa. Seu primeiro filme no cinema foi Persona do diretor sueco Ingmar Bergman, em 1966. Ullman viveu com Bergman entre 1966 e 1971, fez dez filmes com o diretor e teve uma filha, a escritora Linn Ullmann. Em 2000, o seu segundo longa-metragem, Faithless, foi nomeado para a Palma de Ouro, mas acabou perdendo para Dançando no Escuro (Danser i Mørket) do diretor dinamarquês Lars von Trier. O filme de von Trier também rendeu a cantora e compositora islandesa Björk o Prêmio de interpretação feminina em Cannes.

Oito anos mais tarde, em 2009, Isabelle Huppert foi a 10ª mulher presidente do corpo de jurados do festival. É aclamada como uma das melhores atrizes da história do cinema francês e europeu, tendo sido nomeada 16 vezes para o Prêmio César, ganhando como Melhor Atriz duas vezes: em 1996 por seu trabalho em La Cérémonie (1995) e em 2017 por seu papel em Elle (2016). Isabelle é uma das únicas quatro mulheres que ganharam duas vezes Palma de Ouro de Melhor Atriz: em 1978 por seu papel em Violette (Violette Nozière) e em 2001 por A Professora de Piano (La Pianiste). Pelo papel de Michèle LeBlanc no filme Elle, recebeu o Globo de Ouro de Melhor Atriz – Drama em 2017, e também a sua primeira indicação ao Oscar na categoria de Melhor Atriz.

Em 2014, foi a vez da diretora neozelandesa Jane Campion presidiu o júri de Cannes. Seu filme mais conhecido é O Piano, premiado com a Palma de Ouro em 1993. O longa venceu também o Oscar de Melhor Argumento Original no mesmo ano. Em 2018, será a vez de Cate Blanchett presidir o corpo de jurados de Cannes. Recentemente, a atriz assumiu uma posição contra o assédio sexual ao participar da campanha Time’s Up junto com estrelas como Reese Whiterspoon, Natalie Portamn, Meryl Streep e outros 300 profissionais do cinema, da televisão e do teatro. A iniciativa consiste em um fundo de defesa às vítimas de assédio ou abuso sexual. No entanto, ela foi acusada de hipocrisia por Dylan Farrow, filha do cineasta Woody Allen, que repudia o seu relacionamento com o diretor e suposto abusador.

Cate Blanchett chamou a atenção internacional em 1998 como a rainha Elisabeth I da Inglaterra, no filme Elisabeth dirigido por Shekhar Kapur. Também ficou conhecida por outros personagens como a rainha dos elfos, Galadriel, da trilogia de J.R.R. Tolkien, O Senhor dos Anéis (The Lord of the Rings), a coronel Irina Spalko em Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull, 2008) e Katharine Hepburn no filme O Aviador (The Aviator), de Martin Scorsese, papel pelo qual recebeu, em 2005, o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Em 2014, ganhou o Oscar de Melhor Atriz por Blue Jasmine, de Woody Allen e em 2016 foi nomeada na categoria de Melhor Atriz por sua performance em Carol.

No último ano a diva de Hollywood debutou nos filmes de super-heróis encarnado a personagem Hela no filme Thor: Ragnarok, baseado no personagem da Marvel Comics. Outra surpresa foi sua atuação em Manifesto, de Julian Rosefeldt. Produzido em 2015, depois de percorrer museus ao redor do mundo e estrear no Festival do Rio, o filme em que Cate Blanchett interpreta 13 personagens também chegou comercialmente aos cinemas brasileiros no dia 26 de outubro de 2017. Trata-se de uma sequência de vários monólogos interpretados pela atriz australiana. Todos os papéis – entre eles uma professora, trabalhadora de fábrica, coreógrafa, punk, leitor de notícias, cientista, títere, viúva e um sem-teto – são baseados em declarações de mais de 50 artistas e pensadores do século XX. Derivado da videoinstalação do artista Julian Rosenfeldt, este filme é um “tour de force espirituoso sobre o quão atemporais são as ideias visionárias”.

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