“Todas as mulheres em Hollywood deveriam ganhar um Oscar duplo por atuarem/agirem como se todos os homens fossem legal o tempo todo, cada um deles.”

Trevor Noah (comediante)

Hollywood provavelmente não será mais a mesma ou pelo menos é o que se espera. Em outubro deste ano, o jornal The New York Times denunciou o “mega-produtor” de cinema Harvey Weinstein por assédio sexual e “contato físico indesejável”. Dezenas de mulheres entre elas atrizes, modelos e funcionárias que passaram pelas produtoras Miramax e The Weinstein Company relataram que foram constrangidas, chantageadas e abusadas por este que é um dos maiores produtores de cinema do mundo. Na esteira das revelações dos casos envolvendo o produtor de Hollywood, vítimas e denunciantes de assédio sexual usaram a hashtag #MeToo (“eu também”) nas redes sociais para compartilhar suas histórias de abuso e assédio. Na última semana (18), a revista norte-americana Time escolheu o movimento de mulheres que denunciaram o assédio como a ‘personalidade de 2017’.

Intituladas pela publicação semanal como “The Silence Breakers – the voices that launched a movement” (“As Quebradoras de Silêncio – as vozes que lançaram um movimento”, em português), o grupo reúne pessoas, em sua maioria mulheres, que denunciaram as agressões sexuais cometidas por homens poderosos nos diferentes segmentos profissionais. Símbolos da campanha, na capa estão: Ashley Judd (atriz), Taylor Swift (cantora), Isabel Pascual (lavradora), Adama Iwu (lobista) e Susan Fowler (ex-engenheira do Uber). De acordo com a publicação, o movimento #MeToo desencadeou a reflexão sobre a prevalência do assédio sexual nos EUA e em mais de 85 países incluindo Índia, onde essa luta já se tornou um debate nacional nos últimos anos, além de países do Oriente Médio e da Ásia. No entanto, os efeitos das mudanças que essa capa representa serão percebidos daqui há alguns anos, embora isso já tenha levado à queda produtores, atores, altos executivos, jornalistas e políticos americanos.

Até o momento mais de 10 mulheres acusaram Harvey Weinstein de assédio e três de estupro, incluindo a cineasta italiana Asia Argento. Em uma entrevista publicada no jornal italiano Stampa, Asia comentou suas acusações contra o magnata de Hollywood: “Weinstein é um predador em série. Fez isso com centenas de mulheres. Se o escândalo não veio à luz antes é porque todos silenciavam ele. Não pagou só mulheres, mas também jornais e jornalistas”. Asia Argento revelou que o produtor lhe obrigou a fazer sexo oral em um quarto de hotel da Costa Azul da França em 1997. Em 2000, ela escreveu, dirigiu e estrelou um filme sobre sua experiência com Weinstein, intitulado Scarlet Diva.

Entre outros nomes estão atrizes como Ashley Judd, Katherine Kendall, Rose McGowan, Florence Darel, Judith Godreche, Emma de Caunes, Alice Evans e Lysette Anthony. Além disso, megaestrelas como Angelina Jolie, Gwyneth Paltrow, Cara Delevingne e Lea Seydoux também se manifestaram publicamente com histórias similares sobre o produtor hollywoodiano. A cineasta e atriz italiana Asia Argento Como consequência de seus atos Harvey Weinstein foi demitido de sua empresa, a The Weinsten Company; expulso do Sindicato dos Produtores de Hollywood; dos quadros do Conselho do Oscar e da Academia de Televisão dos Estados Unidos, que todos os anos entrega os prêmios Emmy.

A cada semana novos nomes somam-se à lista dos marcados por escândalos semelhantes, como os atores Kevin Spacey, Dustin Hoffman e Ed Westwick; o comediante Louis C.K.; o cineasta James Toback e o showrunner Matthew Weiner (criador da série Mad Man). Mas a lista de envolvidos em escândalos não se restringe apenas à indústria do entretenimento. O senador norte-americano democrata Al Franken renunciou, sob pressão de seu próprio partido, depois que oito mulheres o acusaram de assédio sexual. Franken, era um dos nomes cotados como candidato democrata para as eleições presidenciais de 2020 nos EUA. Veterano na TV dos EUA, Charlie Rose, âncora do 60 Minutes (prestigiado programa de entrevistas), foi demitido da CBS após o relato de oito mulheres ser publicado pelo Washington Post. Rose pediu ‘profundas desculpas’. As denúncias de assédio sexual vêm agitando os EUA com demissões de nomes consagrados. De acordo com a última contagem do jornal Folha de S. Paulo, depois de Harvey Weinstein outros 47 homens públicos foram forçados a renunciar a seus postos ou foram demitidos por acusações de assédio.

A Netflix, por exemplo, cortou o ator Kevin Spacey da série House of Cards e também da produção de um filme biográfico sobre Gore Vidal. O diretor Ridley Scott decidiu convidar o veterano Christopher Plummer para substituir Spacey em All the Money in the world, que já estava na fase de pós-produção, depois deste ter sido acusado de assédio sexual por vários homens, inclusive pelo ator Anthony Rapp (atualmente no elenco de Star Trek) que à época tinha apenas 14 anos de idade. Em função da polêmica envolvendo o a organização do Emmy cancelou a homenagem que faria a Kevin Spacey. O ator receberia prêmio dedicado a nomes que influenciaram a TV nos últimos anos.

No Teatro de Paris estreia foi cancelada depois que o New York Times detalhou as acusações de má conduta sexual de Louis com várias mulheres | Dia Dipasupil/Getty Images North America

Louis C.K., um dos mais célebres comediantes dos Estados Unidos, teve o lançamento de seu filme I Love You, Daddy, que estrearia no último dia 17, cancelado pela distribuidora The Orchard após ser acusado de se masturbar na frente de colegas de trabalho. O seu novo projeto já estava sendo criticado por romantizar comportamentos sexuais predatórios. A trama de I Love You , Daddy gira em torno de um roteirista de televisão (Louis C.K.) que fica preocupado quando sua filha de 17 anos (Chloe Grace Moretz) passa a ser alvo de investidas de um cineasta muito mais velho (John Malkovich), de reputação dúbia e que o personagem de Louis C.K. adora. Como se já não bastasse toda a situação desfavorável para o comediante o filme também tem um personagem que supostamente simula masturbação diante de outras pessoas.

De acordo com o The New York Times, cinco mulheres confirmaram histórias de assédio sexual envolvendo Louis C.K. Dentre elas Dana Min Goodman e Julia Wolov,  duas comediantes de Chicago, se apresentaram em 2002 no Festival de Artes de Comédia dos Estados Unidos em Aspen, Colo. Dana Min Goodman disse que depois do show dessa noite, Louis C.K. convidou-as até o seu quarto de hotel para uma bebida. Os bares estavam fechados, ele era um comediante que elas admiravam e como eram duas não imaginaram que ele pudesse tentar algo contra elas. Goodman contou ao NYT que assim que se sentaram em seu quarto, ainda envolvidas em seus casacos e chapéus de inverno, Louis C.K. perguntou se ele poderia mostrar seu pênis. Pensando que se tratava de uma piada, riram. “E então ele realmente fez isso”, disse Goodman. “Ele tirou todas as roupas e ficou completamente nu e começou a se masturbar”, explicou a atriz. A comediante revelou que ficou paralisada pelo incidente, mas, embora tenha contado inicialmente para algumas pessoas, decidiu não se pronunciar publicamente porque o gerente da C.K., Dave Becky, teria ficado chateado com suas reivindicações.

No entanto, a atriz Tig Notaro, estrela da série One Mississippi (que tem Louis como produtor executivo) é uma das poucas pessoas no mundo da comédia a falar contra ele. No episódio Can’t Fight This Feeling (2×03) da atração, há uma cena em que uma personagem, interpretada pela mulher de Tig Notaro, Stephanie Allynne, é assediada sexualmente quando o seu chefe se masturba na frente dela. A situação reflete acusações feitas por outras comediantes contra Louis C.K. quando seus nomes ainda não haviam sido revelados. Tig Notaro explicou ao Hollywood Reporter queria mostrar que “você pode ser agredido sem sequer ser tocado”. A humorista acusou Louis de comportamento inadequado em nome de mulheres que haviam confidenciado a ela que o comportamento predatório de C.K.

Tig Notaro já havia citado rumores sobre o colega enquanto promovia a segunda temporada de One Mississippi produzida por Louis C.K (apesar da atriz ter afirmado que ele já não tinha mais vínculo com a série, e que ambos não se falavam há dois anos). A humorista contou em e-mail ao New York Times que aprendeu sobre sua reputação depois de venderem a série para a Amazon: “Ele sabia que isso o faria parecer um bom cara, apoiando uma mulher”. O empresário de Louis, Dave Becky (representante de cerca de 20 outras celebridades como Aziz Ansari, Amy Poehler, Kevin Hart, John Mulaney, Maya Rudolph, Pamela Adlon e outros), também foi acusado de pressionar as mulheres a manterem o caso em segredo. Dave Becky emitiu uma declaração pedindo desculpas por não ter levado mais a sério os relatos anteriores do comportamento de C.K.

Segundo informações do Hollywood Reporter, Pamela Adlon a estrela de Better Things, série que ela criou em parceria com Louis C.K. – cortou relações com a 3 Arts Entertainment (empresa de gestão de talentos e produtora de televisão/cinema da qual Dave Becky faz parte), apesar desta ter comunicado que C.K. não é mais seu cliente. Adlon ficou preocupada com a admissão do colega de trabalho: “Minha família e eu estamos devastados e chocados após a admissão de um comportamento abominável por meu amigo e parceiro, Louis C.K.”, segundo informações do The New York Times. A atriz complementou: “Sinto profunda tristeza e empatia pelas mulheres que se apresentaram. Estou pedindo privacidade neste momento para mim e minha família. Estou processando e sofrendo e espero dizer mais assim que puder”.

Quem acompanha o trabalho de Louis C.K. sabe que ele costuma fazer humor falando muito de seus próprios “pensamentos sexuais pervertidos” e sua mania de se masturbar. Além disso, o comediante tem uma compulsão por converter seus próprios comportamentos inapropriados em material para sua carreira de humorista, muito bem-sucedida, o que às vezes soa perturbador. Louis C.K. respondeu à imprensa norte-americana assumindo sua culpa nas acusações de assédio sexual feitas e, como consequência perdeu o posto de produtor executivo em três séries: Better Things, Baskets e One Mississippi. A Netflix também cancelou a produção do seu segundo especial de stand up. Além disso, a animação The Cops, prevista para 2018, criada e dublada por ele também teve sua produção suspensa pelo canal TBS. A HBO anunciou que retiraria os projetos antigos do comediante, como Lucky Louie (2006 – 2007), do seu serviço de vídeo on demand (HBO Go) e cumpriu o prometido. A emissora também decidiu pela não participação de Louis C.K. no especial de caridade Night of too Many Stars: America Unites for Autism Programs, que foi ao ar em 18 de novembro.

Menos renomado, o inglês Ed Westwick (Gossip Girl) foi acusado por duas mulheres de agressão sexual. Apesar dele negar a BBC preferiu não se arriscar e cancelou o especial de fim de ano Condenado pela Inocência (Ordeal by Innocence, de 1944), baseado em uma das obras favoritas da escritora inglesa Agatha Christie, a Dama do Crime. Hollywood vem evitado qualquer associação com figuras envolvidas em acusações de assédio e violência sexual. Parece que as denúncias estão provocando algumas mudanças visíveis como a demissões de astros, a associação de grandes estrelas à imagem de assediador sexual e a queda vertiginosa de nomes consagrados pelo público e pela crítica. Mas o que o que está sendo exposto agora não é novidade ou coincidência. No primeiro post aqui do blog foi abordado o tema de assédio e abuso sexual, bem como psicológico, envolvendo personalidades de Hollywood. Na ocasião, a reflexão foi desencadeada a partir do episódio American Bitch (6×03) de Girls (2012-2017), série da HBO criada e estrelada por Lena Dunham. Vale ressaltar que Lena Dunham já se manifestou definitivamente pro-Dylan Farrow, filha adotiva do cineasta Woody Allen com a atriz Mia Farrow, a respeito das acusações de abuso sexual cometidas pelo cineasta quando Dylan tinha sete anos.

No começo deste mês (07), Dylan Farrow escreveu em um editorial publicado no Los Angeles Times: “O sistema funcionou para Weinstein e ainda funciona para Woody Allen”. Mia Farrow acusou o cineasta de abuso sexual publicamente em 1993 após a separação do casal  A história voltou à tona em 2014 após Dylan Farrow publicar uma carta aberta no blog do colunista Nicholas Kristof, no site The New York Times, com detalhes de sua versão da história. Na publicação recente do Los Angeles Times, Dylan acusa a mídia de proteger Allen e questiona “por que a revolução #MeToo poupou Woody Allen?”. O cineasta por sua vez perdeu a oportunidade de permanecer calado em relação ao caso Weinstein ao declarar em entrevista à BBC: “Você não vai querer entrar numa atmosfera de caça às bruxas, onde qualquer cara que pisca para uma garota em seu escritório de repente tem que ligar para seu advogado para se defender”. Mais tarde, em entrevista à Variety, Woody Allen tentou esclarecer seu depoimento: “Quando disse que estava triste por Harvey Weinstein era porque queria dizer que ele é um homem triste e doente”, afirmou.

Mais triste é descobrir que diversos profissionais antes admiráveis usavam o poder que detinham para abusar sexualmente, bater e até mesmo estuprar e, depois, calavam suas vítimas. Não é NÃO. Qual é a dificuldade de entender isso? As pessoas que estão chamando o cálculo de predadores sexuais de uma “caça às bruxas” talvez devessem se informar sobre o que isso significa. Porque o que se está fazendo mais uma vez é referência à um período da História em que as mulheres foram caçadas e abusadas. Ninguém quer machucar ou atacar homens inocentes. As mulheres só desejam, literalmente, sair de casa para o trabalho sem serem estupradas dentro do transporte público como já aconteceu, por exemplo, aqui no Brasil. Há aqueles homens que reagem às notícias de acusações de abuso sexual dizendo que “é um momento ruim ser um homem”. E quando não foi um momento ruim para ser uma mulher nos últimos seis mil anos ou mais de História?

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