No chão a Marquesa de Montespan, acima Alexandre Bontemps, ao lado o rei Luís XIV, a rainha Maria Teresa de Áustria, no chão Fabien Marchal, acima o Cavaleiro de Lorena, Henriqueta Ana Stuart, Monsieur Filipe d’Orleães e Béatrice

Conhecido como o “Rei Sol”, Luís XIV foi o Rei da França e Navarra de 1643 até à sua morte em 1715. Seu reinado de 72 anos é um dos mais longos na história da Europa, consolidou o sistema da monarquia absolutista e contribuiu para a França chegar à liderança das potências europeias. O Rei Sol continuou a política de seus predecessores de criar um governo centralizado a partir da capital, mas decide sair de Paris e transformar o Palácio de Versalhes no centro de poder político da França [1]. A série Versailles, criada por David Wolstencroft (The Escape Artist) e Simon Mirren (Criminal Minds), narra a trajetória do monarca francês a partir de 1667, sua investida para mover seu tribunal de Paris para Versalhes e as campanhas para expandir o antigo pavilhão de caça da família real até transformá-lo no maior palácio do mundo ao longo das décadas seguintes. Sucesso de audiência internacionalmente, Versalhes garantiu sua renovação pelo Canal Plus da França antes mesmo de estrear, que encomendou a produção de 10 episódios para a segunda temporada. Segundo informações divulgadas no site oficial do canal francês de televisão, a terceira temporada [2] já está sendo gravada.

Estrelada por George Blagden (o monge Athelstan, na série Vikings) na pele do rei Luís XIV, o drama histórico estreou em 2015 quando completou 300 anos da morte do monarca. Falada em inglês para conquistar o mercado internacional, o seriado mistura figuras históricas contracenando com personagens fictícios. A produção é do Canal Plus, Capa Drama e Zodiak Rights, que cuida da distribuição internacional com a produtora canadense Incendo. Aqui no Brasil o GNT transmite com exclusividade a primeira temporada de Versailles, com 10 episódios, pelo GNT Play e pelo VOD das operadoras Net, Claro, Vivo e Oi, nas opções dublada e legendada. Em sua primeira temporada a trama apresenta as principais figuras da realeza e da nobreza francesa e mostra o início do sonho do jovem rei francês de criar uma ‘gaiola dourada’ onde pudesse organizar e controlar a França como governante absoluto.

Dentre as figuras históricas destacam-se: Monsieur Filipe d’Orleães (Alexander Vlahos), o extravagante irmão caçula de Luís XIV; a rainha Maria Teresa de Áustria (Elisa Lasowski), que tolerava os diversos casos extraconjugais de seu marido; o Cavaleiro de Lorena (Evan Williams), um nobre francês e famoso amante de Monsieur Filipe, irmão de Luís XIV; Henriqueta Ana Stuart (Noémie Schmidt), prima, amante do rei e primeira esposa de Filipe I, Duque de Orleães; a Marquesa de Montespan (Anna Brewster), dama da corte francesa e uma das mais famosas favoritas do rei e Alexandre Bontemps (Stuart Bowman), o respeitado e temido valete do rei Luís XIV, figura poderosa na corte de Versalhes pelo seu excepcional acesso ao rei. Já Fabien Marchal (Tygh Runyan), é um personagem fictício, o líder da força policial de Luís XIV, que por vezes, à pedido do rei, atua como polícia secreta e inteligência na corte real francesa.

Famoso pela frase “L’ etat c’est moi.” (“O Estado sou eu”) e adepto da teoria do direito divino dos reis [3], Luís XIV (historicamente reconhecido como o símbolo máximo do absolutismo) procurou eliminar os vestígios do feudalismo que existiam em algumas partes da França e para pacificar a aristocracia ofereceu a muitos nobres a oportunidade de morar em seu luxuoso Palácio de Versalhes. A segunda temporada acontece a partir de 1671 e se aprofunda nas traições amorosas do monarca francês, nas extravagâncias sexuais na corte francesa, nas conspirações políticas internas (na corte) e externas (de outras nações), nos assassinatos de nobres por envenenamento e nas crises consequentes desse projeto audacioso de poder, como a Guerra Franco-Holandesa (1672 – 1678) [4], abordada superficialmente no sétimo episódio.

Orçada em 27 milhões (cerca de R$ 87 milhões) [5] de euros, a primeira temporada usou o próprio Palácio de Versalhes como locação, mas também faz uso de efeitos em CGI para recriar cenários da época. Para facilitar as filmagens, visto que o local só poderia ser utilizado quando estivesse fechado à visitação pública, diversos cômodos do palácio foram reproduzidos em estúdios. Os dois primeiros episódios foram dirigidos por Jalil Lespert mas outros seis diretores dividem a direção da série dentre os quais destaca-se Thomas Vincent, a frente de seis episódios. Os roteiros são preparados por Wolstencroft e Mirren, que contam com o apoio de uma equipe formada por Andrew Bampfield, Audrey Fouché (Les Revenants), Jamie Brittain (Skins) e Tim Loane (Teachers).

Anúncio do início das gravações da terceira temporada

Na terceira temporada, o Rei Sol ganhou a Guerra Franco-Holandesa (1672 – 1678) e nada parece ser capaz de frustrar suas ambições de expandir seu império e impor sua vontade sobre toda a Europa. Mas seus sonhos têm um custo muito alto assim como a resistência do povo que vai crescendo. Em Versalhes novos desafios também aguardam por Luís. Sua nova favorita, Madame de Maintenon (Catherine Walker), vai levá-lo a assinar uma declaração absolutista que causa divisões significativas no Tribunal. Gradualmente, o monarca passa não tolerar nenhuma dissidência de seu povo, dos protestantes ou o próprio Papa. No entanto, uma ameaça paira sobre Luís na forma de prisioneiro misterioso escondido atrás de uma máscara.

Apesar do show ter conquistado o grande público na França, gerou controvérsias pelo fato do elenco ser composto de atores predominantemente britânicos e o diálogo inteiramente em inglês. O co-criador David Wolstencroft disse que temeu que houvesse uma reação na França, por contar a história do monarca mais amado da nação em inglês, mas acrescentou que teria sido difícil vender o programa em todo o mundo se fosse em francês: “A verdade é que o setor de TV na França está amadurecendo e crescendo como todos, e eles estão tendo que negociar este novo mundo de co-produção internacional.” [6].  Ele acrescentou: “Embora seja bom pensar que os franceses poderiam fazer isso em seu próprio idioma e vendê-lo, simplesmente os números não funcionariam.” [7] Wolstencroft explica: “O fato é que, se você simplesmente executa os números em termos de um show como este, com o escopo e a ambição dele, para as vendas no exterior e a capacidade de fazer um empreendimento viável, o inglês supera em muito qualquer outra língua.” [8].

Descrito como “o drama de TV mais sexy de todos os tempos” [9], David Wolstencroft, um dos escritores de Versalhes, rebateu as críticas de quem julgou o show dominado pelo sexo, declarando que o drama histórico francês continha “representações honestas da sexualidade” [10] das mulheres na corte de Luís XIV. Em matéria publicada no site do The Telegraph e não tinha como objetivo excitar: “Na verdade, é uma maneira cuidadosamente organizada, muito pensada, calculada por Simon e eu de explorar o poder.” [11]. Wolstencroft disse que os críticos britânicos se concentraram demais no sexo, que era apenas “parte do sabor”, “não o prato principal”: “Mas, se você quiser se excitar e contar os mamilos, vá em frente, mas não é assim que o público francês o consumiu, o público canadense o consumiu e, como eu penso que o público inglês o consumirá, acho que vão olhar para isso e dizer: ‘O que foi todo esse barulho?’” [12].

Versailles é a terceira coprodução internacional de orçamento significativo (27 milhões de euros), lançada pelo Canal+ após a canadense-húngara-irlandesa Os Bórgias em 2011, com 29 episódios e cuja primeira temporada custou 25 milhões de euros, e a ficção policial franco-britânica The Tunnel de 2013 (19 milhões de euros), com 18 episódios. As gravações da terceira temporada começaram em maio deste ano e têm duração prevista de cinco meses. As filmagens serão feitas nos estúdios de Bry-sur-Marne, no Castelo de Versalhes, castelo de Vaux-le-Vicomte, castelo de Champlâtreux e castelo de Lesigny, com estreia prevista para 2018.

 

REFERÊNCIAS:

[1] O Palácio de Versalhes foi residência fixa do rei e da corte até 1789, quando é deflagrada a Revolução Francesa e a família real é forçada a voltar à capital Paris.

[2] http://versailles.canalplus.fr/actualites/1447361

[3] Em meio a uma França dilacerada pela guerra civil travada entre católicos e huguenotes, das ruínas da Noite de São Bartolomeu, tragédia que ensanguentou Paris em 1572, é que surgiu a obra de Jean Bodin intitulada Six Livres de La République (Seis livros da República), publicada em 1576. O grande jurista do parlamento de Paris, defendia integridade da soberania monárquica. De haver a necessidade da total concentração do poder nas mãos de um rei, cuja autoridade – perpétua e ilimitada – não podia ser contestada. O Estado era o “pupilo”, o Rei o seu “tutor”. A soberania dele não vinha do arcebispo de Reims, dos Doze Pares da França, muito menos do povo, mas diretamente de Deus, exercendo assim “um poder supremo separado das leis”.

[4] Entre as origens do ataque movido pelo reino da França contra as Províncias Unidas (vulgo “Holanda”), está o apoio dado por essa república à Espanha, durante a Guerra de Devolução (1667-1668), um conflito bélico entre Espanha e França sobre o pretexto de que o dote de 500.000 libras de sua esposa Maria Teresa da Áustria não havia sido pago.

[5] http://variety.com/2016/tv/news/versailles-ratings-u-s-ovation-tv-1201883325/

[6] http://www.telegraph.co.uk/news/2016/06/01/versailles-writer-denies-bbc-drama-is-dominated-by-sex/

[7] Idem.

[8] Idem.

[9] https://www.theguardian.com/media/2017/may/15/french-tv-company-behind-versailles-to-invest-in-uk-drama

[10] http://www.telegraph.co.uk/news/2016/06/01/versailles-writer-denies-bbc-drama-is-dominated-by-sex/

[11] http://www.telegraph.co.uk/news/2016/06/01/versailles-writer-denies-bbc-drama-is-dominated-by-sex/

[12] Idem.

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