Nesta semana o ator Daniel Day-Lewis, de 60 anos, anunciou a sua aposentadoria. A informação foi divulgada com exclusividade pela revista americana Variety e confirmada por Leslee Dart, a porta-voz do ator: “Daniel Day-Lewis não vai mais trabalhar como ator. Ele é imensamente grato a todos os seus colaboradores e ao seu público por todos esses muitos anos. Esta é uma decisão privada e nem ele nem os seus representantes voltarão a comentar sobre o assunto.” [1]. Considerado pela revista Time como o melhor ator do mundo em 2012, Daniel é o único profissional na história do cinema a ter recebido o Oscar de Melhor Ator três vezes.

Nascido em Londres, no dia 27 de abril de 1957, Daniel é filho da atriz inglesa Jill Balcon, que se apresentava em programas de rádio e TV, e do poeta anglo-irlandês Cecil Day-Lewis (que também assinava como Nicholas Blake). Estudou teatro na Bristol Old Vic Theatre School, fundada pelo ator, produtor e diretor Lawrence Olivier, e é considerado um ator do método [2] devido ao seu aprofundamento emocional e na pesquisa das personagens. Daniel Day-Lewis debutou no cinema em 1971 no longa-metragem Domingo Maldito realizado por John Schlesinger, mas trata-se de uma pequena participação e seu nome não foi incluído nos créditos do filme.

Na década de 80 o ator integrou as companhias teatrais Royal Shakespeare Company e Royal Nation Theatre, se revezando entre os palcos e o cinema. Participou das montagens teatrais de Sonhos de uma Noite de Verão, Romeu e Julieta e Hamlet. No cinema ele estrelou Minha Adorável Lavanderia (1985), seu primeiro papel aclamado pela crítica, e ganhou notoriedade pública com Uma Janela para o Amor (1985). Mais tarde atuou em A Insustentável Leveza do Ser, de 1988, dirigido por Philip Kaufman e inspirado no livro homônimo de Milan Kundera. No ano seguinte, em 1989, Daniel se transformaria em Christy Brown no longa Meu Pé Esquerdo do diretor irlandês Jim Sheridan. O filme é inspirado na autobiografia de Brown, um escritor e artista plástico deficiente físico que enfrentou vários obstáculos até alcançar o reconhecimento, e rendeu à Daniel Day-Lewis seu primeiro Oscar de Melhor Ator.

Nos anos 90, Daniel Day-Lewis atuou em cinco filme: O Último dos Moicanos (1992), A Época da Inocência (1993), Em Nome do Pai (1996), As Bruxas de Salem (1996) e O Lutador (1997). Em 1994, Daniel foi novamente indicado ao Oscar de Melhor Ator por Em Nome do Pai, sua segunda parceria com Jim Sheridam. Na trama, após um atentado a bomba do IRA em um pub de Guilford, próximo de Londres, Gerry Conlon (Daniel Day-Lewis), um jovem rebelde irlandês, e três amigos são acusados pelo crime, presos e condenados. Giuseppe Conlon (Pete Postlethwaite), o pai de Gerry, tenta ajudar o filho e também é condenado, mas a advogada Gareth Peirce (Emma Thompson), passa a investigar as irregularidades do caso para ajudá-los. No entanto, foi Tom Hanks quem acabou agraciado com a estatueta dourada por sua atuação como Andrew em Philadelphia, um filme de Jonathan Demme.

Recluso, Daniel Day-Lewis raramente dá entrevistas e faz poucas aparições públicas. Essa não seria a primeira vez que ele optaria por fazer um retiro. Em 1998, depois de O Lutador (1997), sua terceira colaboração com Jim Sheridam, Daniel foi trabalhar como aprendiz de sapateiro em Florença, na Itália, estudando com o mestre sapateiro Stefano Bemer. Ele voltaria à grande tela cinco anos mais tarde após o convite para Gangues de Nova York (2002), mais uma parceria como diretor Martin Scorsese (A Época da Inocência). Sua atuação na pele William Cutting, o líder de uma violenta gangue na Nova York do século XIX, rendeu a sua terceira indicação ao Oscar de Melhor Ator. No entanto, o ator Adrien Brody acabou vencendo o prêmio ao dar vida ao pianista polonês e judeu Wladyslaw Szpilman no filme O Pianista, dirigido por Roman Polanski. O drama, baseado nas memórias de Szpilman mostra gradualmente a mudança em Varsóvia à medida que a Segunda Guerra Mundial começa.

Daniel Day-Lewis participou de outros três filmes na primeira década dos anos 2000: os dramas O Mundo de Jack e Rose (2005), Sangue Negro (2007) e o musical Nine (2009). A quarta indicação ao Oscar de Melhor Ator viria com Sangue Negro, do cineasta norte-americano Paul Thomas Anderson. A história se passa na virada do século XIX para o século XX, na fronteira da Califórnia. Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis) é um mineiro de minas de prata derrotado, pai solteiro que um dia descobre a existência de um mar de petróleo transbordando na cidade de Little Boston. Ele decide partir para o local com seu filho para explorar o poço de petróleo que lhes traz riqueza mas também uma série de conflitos. Desta vez o ator foi contemplado com o a estatueta dourada, a segunda de sua carreira, figurando ao lado de: Spencer Tracy, Fredric March, Marlon Brando, Dustin Hoffman, Jack Nicholson e Tom Hanks.

Na década seguinte o ator estrelou o drama-épico e histórico Lincoln (2012), dirigido por Steven Spielberg. Ao mesmo tempo em que se passa a Guerra Civil norte-americana, que acabou com a vitória do Norte, o presidente Abraham Lincoln tenta passar uma emenda à Constituição dos Estados Unidos que pretende acabar com a escravidão. Daniel Day-Lewis foi indicado pela quinta vez ao prêmio de maior prestígio da indústria cinematográfica e ganhou pela terceira vez o Oscar de Melhor Ator, sendo o único profissional na história do cinema a ter recebido esse prêmio três vezes. Apenas Katharine Hepburn alcançou a honra de ter vencido quatro estatuetas na categoria equivalente.

Apesar do anúncio de sua aposentadoria, Daniel Day-Lewis concluiu recentemente as gravações de seu último papel: um estilista inspirado no britânico Charles James em Phantom Thread, sua segunda parceria com Paul Thomas Anderson. A história é ambientada no mundo da moda de Londres na década de 1950. Charles James foi um designer de moda contratado para projetar roupas para membros da alta sociedade e da família real. O estilista foi um dos mais influentes do século XX, amplamente considerado como um mestre de corte e conhecido por sua estética altamente estruturada. Também estão no elenco: Lesley Manville, Camilla Rutherford, Pip Phillips, Richard Graham, entre outros. Daniel é um dos atores mais seletivos da indústria cinematográfica e um dos mais aclamados de sua geração, é possível que o reencontro com o diretor lhe renda a sexta indicação ao Oscar e quiçá a quarta premiação, episódio inédito na história da cerimônia. Em junho de 2014, o ator recebeu o título de ‘Sir’ tendo sido condecorado cavaleiro da rainha no Palácio de Buckingham, a residência oficial da família real britânica.

 

REFERÊNCIAS:

[1] http://variety.com/2017/film/news/daniel-day-lewis-quits-acting-oscar-winner-1202472766/

[2] Técnica onde o ator objetiva introjetar-se nos pensamentos, memórias e emoções de seus personagem para criar um representação que seja verossímil. Desenvolvido por vários atores norte-americanos, principalmente Elia Kazan e Lee Strasberg através de seu Actors Studio, e por Stella Adler, que tiveram todos uma leitura própria das propostas do sistema desenvolvido pelo diretor russo Constantin Stanislavski durante quase quarenta anos. Apesar do sistema de Stanislavski e do método de Strasberg terem suas semelhanças, eles diferem imensamente. O método emprega uma ênfase excessiva na memória emocional, reconstruindo a experiência pessoal dos atores para uso na representação. Stanislavski, ao contrário, achou menos efetivo este acesso a emoção pessoal que outras técnicas desenvolvidas posteriormente. Apesar do diretor russo considerar a memória emotiva como uma técnica útil, ele sugeria usá-la com cautela.

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