O sucesso recente do filme da Mulher Maravilha, de Patty Jenkins, pode abrir portas para que outras heroínas oriundas das histórias em quadrinho ganhem uma adaptação para o cinema. A pergunta do momento é: quais outras heroínas renderiam um filme interessante? Longas como Tank Girl (1995), Mulher-Gato (2004) e Elektra (2005) foram um fracasso retumbante e contribuíram para que os produtores tivessem receio de apostar em uma heroína para ser a protagonista. Hoje isso já foi superado, a série da Netflix de Jessica Jones terá uma segunda temporada e a Marvel lançará o filme da Capitã Marvel em 2018, com a atriz Brie Larsson no papel principal de Carol Danvers. Elektra participou da segunda temporada de Demolidor, que foi ao ar em 2016. A personagem possui boas história, porém dificilmente receberá um outro filme, a tendência é que ela siga em Demolidor e talvez no futuro receba uma série própria na Netflix.

O Cinema Transcendental decidiu listar dez heroínas que não são tão conhecidas pelo grande público, mas têm o potencial necessário para gerar uma grande adaptação. Personagens que atuaram como protagonistas ou destaque em filmes ou séries não entraram na lista, isso exclui bastante gente, inclusive Painkiller Jane e Adèle Blanc-Sec, esta última foi criada por Jacques Tardi e foi base para o filme As Múmias do Faraó, dirigido por Luc Besson em 2010.

1 – JENNY SPARKS

Nascida no primeiro dia de janeiro em 1900, Jenny Sparks é uma heroína trágica que está ligada diretamente ao século XX. Os pais de Jenny morreram no acidente do Titanic em 1912, ela então aceita o convite de seu padrinho Albert Einstein e vai morar em Zurique, na Suíça. Lá Jenny aconselha um jovem pintor a abandonar a arte e entra para a política, o jovem era Adolf Hitler. Em 1913 os poderes de Jenny Sparks começaram a se manifestar, ela manipula a eletricidade, atira rajadas de trovão e pode até converter todo corpo para a forma elétrica. Aos dezenove anos Jenny parou de envelhecer, como acompanhava as emoções do mundo, na Grande Depressão de 1929, por exemplo, ela entrou em uma crise depressiva também.

Jenny Sparks apareceu inicialmente em 1997 na revista Stormwatch durante a passagem do escritor Warren Ellis, Jenny entrou para o grupo que defendia a terra de ameaças perigosas. O Stormwatch chegaria ao fim em pouco tempo, Jenny se uniu a alguns membros restantes dele para formar e liderar o Authority. Jenny sabia que iria morrer no último dia de 1999, ela acabou se sacrificando ao eletrocutar uma criatura alienígena que era o verdadeiro criador do planeta Terra e pretendia destruir toda a vida presente por aqui. No momento em que Jenny morre o ano termina e um novo ser surge, seu nome é Jenny Quantum, o espírito o século XXI. O Authority teve Warren Ellis e Bryan Hitch nas primeiras 12 edições, depois Mark Millar e Frank Quitely assumiram por mais 12 números que completam a fase clássica do grupo.

2 – MAI

Um dos primeiros mangás a se tornar famoso no ocidente foi Mai, a Garota Sensitiva, que foi publicado no Brasil em 1992 pela editora Abril. Escrita por Kazuya Kudō e com arte de Ryoichi Ikegami (o mesmo de Crying Freeman) a narrativa mostrava a vida de Mai Kuju, uma adolescente de 14 anos que tem habilidades psíquicas, como a telecinese. Ela sempre usou seus dons para se divertir quando ficava entediada, tudo muda e a garota é descoberta e perseguida por uma organização que controla o mundo secretamente, além de contar com quatro outras crianças como Mai. A garota herdou de sua mãe (já morta) os poderes, que são transmitidos por gerações de mulheres e mantiveram a paz em sua terra natal, por mais de mil anos. Mai, a Garota Sensitiva foi lançado originalmente pela revista japonesa Weekly Shōnen Sunday de 1985 a 86 e gerou diversas outras obras parecidas, com mulheres protagonistas. O diretor Tim Burton já demonstrou interesse em levar o mangá para o cinema.

3 – JULIA KENDALL

A atriz Audrey Hepburn serviu de inspiração para o visual da criminóloga de Julia Kendall, a personagem principal de uma série de quadrinhos longeva criada pelo italiano Giancarlo Berardi em 1998 para a editora Bonelli. Astros de Hollywood como Whoopi Goldberg e Nick Nolte foram homenageados e servem de base para a feição de dois personagens. Giancarlo Berardi também é responsável por Ken Parker, outro herói clássico da fumetti. Julia dá aulas em uma universidade e auxilia a polícia de Nova Jersey a resolver crimes. Quase sempre ela se mete em enrascadas na caça de serial killers, como Myrna Harrod, uma antagonista recorrente nas histórias. Da mesma forma que Sherlock Holmes e Hercule Poirot, Julia Kendall resolve os casos e responde o clichê: quem matou? O roteiro utiliza o diário de Julia como elemento fundamental das narrativas, ela escreve suas observações pessoais e pensamentos sobre as investigações. Outros personagens passaram a guiar e contar as tramas, Myrna Harrod e o Sargento Irving são alguns deles.

4 – ORQUÍDEA NEGRA

Quatro mulheres já foram chamadas de Orquídea Negra nos quadrinhos: Susan Linden-Thorne, Flora Black, Suzy Black e Alba Garcia. Os poderes da heroína são voar, ter uma força enorme, o corpo fechado, além de poder disfarçar e assumir a forma que desejar. O surgimento de Susan Linden-Thorne ocorreu na revista do Vingador Fantasma em 1974, fruto das mentes de Sheldon Mayer e Tony DeZuniga. Porém nenhum autor contou a origem definitiva da personagem, ao invés disso eles sugeriam possíveis explicações que não davam em nada. Em 1988 Neil Gaiman escreveu uma minissérie da Orquídea Negra, Dave McKean fez ilustrações belíssimas para o quadrinho. A obra foi um divisor de águas para a cronologia da Orquídea, assim como fez com Sandman, Gaiman pegou um personagem antigo e criou uma mitologia nova para ele.

Susan Linden-Thorne foi assassinada pelo seu abusivo marido Carl Thorne. O botânico Philip Sylvain, um amigo de Susan, utilizou o DNA de Susan para gerar híbridos de humanos com plantas. Carl Thorne assassina Philip Sylvain e destrói o lugar onde ele realizava seus experimentos, apenas duas criaturas conseguem sobreviver: Flora Black e Suzy Black. Carl caça a dupla que foge e se esconde no Brasil. Homens de Lex Luthor matam Carl Thorne e contrariam as ordens superiores pois se encantaram pelas Orquídeas Negras. As duas são idênticas, só que uma é adulta e a outra criança, possuem uma parte da memória e da consciência de Susan Linden-Thorne. A história das Orquídeas seguiu na linha Vertigo, com roteiros de Dick Foreman. Já Alba Garcia, a atual Orquídea dos quadrinhos, apareceu na reformulação dos Novos 52, ela foi militar no passado e teve os braços amputados.

5 – HALO JONES

Em 1984, após sua fase a frente do Miracleman, Alan Moore já despontava como um dos melhores roteiristas da nona arte. Naquele ano Moore começou a escrever A Balada de Halo Jones, parceria com o desenhista Ian Gibson que foi publicada semanalmente na revista inglesa 2000 AD em um formato de cinco páginas. Halo Jones vive nos Estados Unidos do século 50, após sua melhor amiga morrer ela decide embarcar em uma nave espacial gigantesca e lendária. A trajetória da heroína se torna épica, ela exerce um papel fundamental em uma guerra intergaláctica.

Halo Jones teve três livros ou tomos, a personagem envelheceu e passou por momentos dramáticos, mostrando que não é fácil ser uma aventureira no espaço sideral. Alan Moore queria distanciar a história dos temas comuns de outros quadrinhos da 2000 AD, como violência, armas e muitos personagens masculinos. Halo era uma garota normal, não possuía uma habilidade especial nem tampouco era uma exímia guerreira. Autores como Douglas Adams, Robert A. Heinlein e Harry Harrison foram fonte de inspiração para o universo de Halo Jones.

6 – BLOODY MARY

Na década de 1990 o roteirista Garth Ennis se tornou reconhecido no meio dos quadrinhos pela série Preacher e por sua passagem em Hellblazer. Em 1996 Ennis e o desenhista Carlos Ezquerra publicaram pela DC o primeiro dos quatro volumes de Bloody Mary, que conta a história da assassina americana Mary Malone em uma distopia em que a Terceira Guerra Mundial é uma realidade. A Europa se tornou uma grande nação comandada por um ditador, só a Inglaterra e os EUA se opõe. Mary é enviada para a Europa onde se disfarça de freira para agir, sua missão é recuperar um parasita que concede poderes ao seu hospedeiro. O parasita acaba nas mãos de Anderton, um assassino que traiu a heroína. Bloddy Mary ainda teve a continuação Lady Liberty em que Mary enfrenta Achilles Seagal, um maníaco líder religioso que tenta forçar todas as mulheres a terem relações sexuais com ele. Seagal dispõe de um culto gigantesco e pretende matar milhares de pessoas inocentes que vivem em Nova York.

7 – ZATANNA

Zatanna é descendente de uma tradição de personagens de histórias em quadrinhos que remontam à figura do mágico com uma cartola, como Mandrake. Ela é filha de Zatara, um poderoso mágico que apareceu primeiramente assim como o Super-Homem na primeira revista da Action Comics em 1938. Em 1964 Zatanna foi apresentada na revista do Gavião Negro procurando por seu pai que tinha desaparecido. Em uma história da Liga da Justiça ela encontrou o pai e descobriu que sua mãe não é humana, e sim de uma espécie de alienígenas conhecidos como Homo magi. Os poderes mágicos de Zatanna são enormes, ela pode manipular objetos, os elementos da natureza e até o espaço e o tempo.

A personagem foi usada por Neil Gaiman em Livros da Magia, em que se torna amiga e protetora do menino Timothy Hunter, que está destinado a ser o maior mago do mundo. O roteirista Grant Morrison foi além e inseriu Zatanna na trama dos Sete Soldados da Vitória, depois ela seria protagonista de uma minissérie desenhada por Ryan Sook e com texto de Morrison. Outra poderosa feiticeira da DC Comics que renderia um bom filme ou série é Madame Xanadu.

8 – PROMETHEA

Promethea é uma série escrita por Alan Moore e com arte de J. H. Williams III que durou 32 números, é a obra em que Moore melhor trata no assunto da magia e de sua relação com a arte. No fim dos anos 1990 Alan Moore havia criado o selo American Best Comics, dentro da editora WildStorm que foi vendida para a DC em 1999. No selo Moore inventou vários heróis que existiam dentro de um universo compartilhado, como Tom Strong. A trama de Promethea acompanha a jovem Sophie Bangs que está pesquisando para um trabalho para sua faculdade sobre uma entidade mitológica conhecida como Promethea, que aparece em escritos de autores diferentes ao longo da História. Na verdade, a pessoa que escreve sobre Promethea a invoca e passa a ser o novo avatar da entidade no mundo físico. A função de Promethea é trazer o apocalipse, que não é um final e sim um recomeço. No documentário The Mindscape of Alan Moore, o autor explique o que é magia:

“Magia na sua forma mais antiga é referida como: A Arte. Creio que isto seja completamente literal. Creio que a magia é arte, e que essa arte seja a escrita, a música, a escultura ou qualquer outra forma é literalmente magia. A arte é, como a magia, a ciência de manipular símbolos, palavras ou imagens, para operar mudanças de consciência. A verdadeira linguagem da magia trata tanto da escrita como de arte e também sobre efeitos sobrenaturais. Um grimório, por exemplo, um livro antigo de feitiços é um modo extravagante de falar gramática. Conjurar um encantamento, é somente encantar, manipular palavrar para mudar a consciência das pessoas. Um artista ou escritor são o mais perto que você poderia chamar de um xamã no mundo contemporâneo. Creio que toda cultura deve ter surgido de um culto. Originalmente, todas as facetas de nossa cultura, sejam ciências ou as artes, eram territórios dos xamãs. Hoje em dia este poder mágico se degenerou ao nível de entretenimento barato e manipulação.”

9 – VAMPIRELLA

Conhecida por sua sensualidade, que era usada para aumentar as vendas para o público masculino, a Vampirella surgiu em 1969 na primeira edição de uma revista que levava o seu nome, editada pela Warren Publishing. Entretanto a publicação não apresentava exclusivamente histórias da heroína, que atuava também como mestre de cerimônias ou anfitriã para outros quadrinhos de terror assim como acontecia em outras revistas da Warren como a Creepy e a Eerie. Forrest Ackerman, um dos editores da Warren, veio com o argumento da personagem enquanto a desenhista Trina Robbins (a primeira mulher a desenhar a Mulher Maravilha nos quadrinhos) trouxe o visual. O cultuado artista Frank Frazetta, que fazia muitas capas, também é creditado como um dos criadores da personagem, assim como Tom Sutton, que ilustrou a primeira aventura de Vampirella.

As histórias da Vampirella se tornaram mais interessantes quando a equipe composta pelo roteirista Archie Goodwin e o artista espanhol José González assumiu o comando. Eles resolveram recontar a origem da heroína, que é na realidade uma alienígena que vivia no planeta Drakulon, onde todos eram como os vampiros e existiam rios feitos de sangue ao invés de água. Vampirella foge de Drakulon que está prestes a explodir, com o auxílio de um grupo de humanos ela vem parar na Terra. Nas edições seguintes Vampirella encontrou com Drácula e com a família Van Helsing. Grandes roteiristas já escreveram para a personagem, como Alan Moore, Warren Ellis, Grant Morrison, Mark Millar e Kurt Busiek. Vampirella chegou a ganhar um longa-metragem em 1996 direto para o vídeo, mas a adaptação não faz jus a obra original, até o próprio diretor Jim Wynorski se arrependeu de ter feito o filme.

10 – MULHER HULK

Criada por Stan Lee e John Buscema, a Mulher Hulk apareceu primeiramente como uma versão feminina do Hulk que não perdia a inteligência quando se transformava. Em 1980 a série de TV do Hulk estava sendo exibida e havia na época uma demanda para mais personagens parecidos com o Gigante Esmeralda. Jennifer Walters foi apresentada como uma prima de Bruce Banner que está ferida e acaba recebendo uma transfusão do sangue de Bruce. Como consequência ela aumenta de tamanho, se torna verde e consegue ficar ainda mais forte quando se irrita. Nas revistas posteriores a transformação se tornou permanente e Jennifer continuou a trabalhar como advogada mesmo estando na forma de Mulher Hulk.

Em 1982 a Mulher Hulk foi escolhida para ser membro dos Vingadores, ela também participaria futuramente do Quarteto Fantástico, dos Defensores e da S.H.I.E.L.D. Em 1985 o desenhista e roteirista John Byrne começou a fazer história com a personagem, ela foi protagonista do decimo oitavo número da Marvel Graphic Novel, intitulada The Sensational She-Hulk. Quatro anos mais tarde Byrne deu início a série solo da Mulher Hulk que teve 60 edições, John Byrne foi responsável por escrever e desenhar metade da série. A principal inovação foi a quebra da quarta parede, a Mulher Hulk sabia que era uma personagem de quadrinhos e, às vezes, discutia com John Byrne e a editora de sua história. As capas também brincavam com isso, em uma delas a Mulher Hulk ameaça os leitores: “Se não comprar a minha revista eu vou rasgar toda a sua coleção de X-Men”.

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